Musica Italiana

Lo Guarracino

( Canta: Roberto Murolo )
( Autor: Anonimo - 1768 )

Agradeço profundamente os amigos Rosane e Guido Cirelli por ter-me sugerido esta
bela musica e sobretudo por ter-me enviado a não fácil tradução do texto em italiano corrente.

Este belo lengalenga foi composto no longínquo 1768 por um autor desconhecido. A letra foi depois recuperada em 1963 pelo maestro Roberto de Simone expressamente para Roberto Murolo. "Guarracino" é o nome em dialeto napolitano do "Coracino", peixe preto bastante feio, e a letra fala de uma batalha entre vários peixes alinhados quem a favor e quem contra o Guarracino, o qual, apaixonado pela Sardinha, deve renunciar ao próprio amor, porque ela havia sido prometida ao Leterado (peixe pertencente à família dos Atuns). Considerando que o texto é escrito em napolitano arcaico, muitos termos (como os nomes de vários peixes) são praticamente intraduzíveis. 

Original em dialeto napolitano arcaico Tradução

Lo Guarracino che jeva pe mare
le venne voglia de se 'nzorare.
Se facette no bello vestito
de scarde de spine pulito pulito,
cu na perucca tutta 'ngrifata
de ziarelle 'mbrasciolata,
co lo sciabò, scolla e puzine
de ponte angrese fine fine.

Cu li cazune de rezze de funno,
scarpe e cazette de pelle de tunno,
e sciammeria e sciammereino
d'aleche e pile de voje marino,
co buttune e bottunera
d'uocchie de purpe, secce e fera,
fibbia, spata e schiocche 'ndorate
de niro de secce e fele d'achiate.

Doje belle cateniglie
de premmone de conchiglie,
no cappiello aggallonato
de codarino d'aluzzo salato,
tutto posema e steratiello
ieva facenno lo sbalantieílo
e gerava da ccà e da llà
la 'nnammorata pe se trovà!

La Sardella a lo barcone
steva sonanno lo calascione;
e a suono de trommetta
ieva cantanno st'arietta:
"E llarè o marelena
e la figlia da sià Lena
ha lasciato lo nnamorato
pecchè niente l ha rialato".

Lo Guarracino 'nche la guardaje
de la Sardella se 'nnamoraje;
se ne jette da na Vavosa,
la cchiù vecchia maleziosa;
l'ebbe bona rialata
pe mannarle la mmasciata.
La Vavosa pisse pisse
chiatto e tunno nce lo disse.

La Sardella 'nch'a sentette
rossa rossa se facette,
pe lo scuorno che se pigliaje
sotto a no scuoglio se 'mpizzaje.
Ma la vecchia de vava Alosa
sabeto disse: Ah schefenzosa,
de sta manera non truove partito
'ncanna te resta lo marito!

Se aje voglia de t'allocà
tanta smorfie nonaje da fa,
fora le zeze e fora lo scuorno,
anema e core e faccia de cuorno!
Ciò sentenno la sià Sardella
s'affacciaje a la fenestrella,
fece n'uocchio a zennariello
a lo speruto 'nnammoratiello.

Ma la Patella, che steva de posta,
la chiammaje faccia tosta,
tradetora, sbrevognata,
senza parola, male nata,
ch'avea 'nchiantato l'Alletterato
primmo e antico 'nnamorato.
De carrera da chisto jette
e ogne cosa 'lle dicette.

Quanno lo 'ntise lo poveriello
se lo pigliaje Farfariello.
Jette a la casa e s'armaje e rasulo,
se carrecaje comm'a no mulo
de scopette e de spingarde,
povere, palle, stoppa e scarde.
Quattro pistole e tre bajonette
dint'a la sacca se mettette.

'Ncopp'a li spalle sittanta pistune,
ottanta mbomme e novanta cannune;
e comm'a guappo Pallarino
jeva trovanno lo Guarracino
e la disgrazia a chisto portaje
che mmiezo a la chiazza te lo 'ncontraje.
Se l'afferra po crovattino
e po lle dice: Ah malandrino!

Tu me lieve la 'nnammorata
e pigliatella sta mazziata!
Tuffete e taffete a meliune
le deva paccare e secuzzune,
schiaffe, ponie e perepesse,
scoppolune, fecozze e conesse,
scerevecchiune e sicutennosse
e ll'ammacca osse e pilosse.

Venimmoncenne ch'a lo rommore
pariente e amice ascettero fore,
chi co mazze, cortielle e cortelle,
chi co spate, spatune e spatelle.
Chiste co barre e chille co spite,
chi co ammennole e chi co antrite,
chi co tenaglie e chi co martielle,
chi co torrone e sosamielle.

Patre, figlie, marite e mogliere
s'azzuffajeno comm'a fere.
A meliune correvano a strisce
de sto partito e de chillo li pisce.
Che bediste de sarde e d'alose
de palaje e raje petrose,
sarache, dientece ed achiate,
scurme, tunne e alletterate!

Pisce palumme e pescatrice,
scuorfene, cernie e alice,
mucchie, ricciole, musdee e mazzune,
stelle, aluzze e storiune,
merluzze, ruongole e murene,
capodoglie, orche e vallene,
capitune, auglie e arenghe,
ciefere, cuocce, traccene e tenghe.

Treglie, tremmole, trotte e tunne,
fiche, cepolle, laune e retunne,
purpe, secce e calamare,
pisce spate e stelle de mare,
pisce palumme e pisce prattielle,
voccadoro e cecenielle,
capochiuove e guarracine,
cannolicchie, ostreche e ancine

Vongole, cocciole e patelle,
pisce cane e grancetielle,
marvizze, marmure e vavose,
vope prene, vedove e spose,
spinole, spuonole, sierpe e sarpe,
scauze, nzuoccole e co le scarpe,
sconciglie, gammere e ragoste,
vennero nfino co le poste!

Capitune, saure e anguille,
pisce gruosse e piccerille,
d'ogni ceto e nazione,
tantille, tante, cchiu tante e tantone!
Quanta botte, mamma mia,
che se devano, arrassosia!
A centenare le barrate!
A meliune le petrate!

Muorze e pizzeche a beliune,
a delluvio li secozzune!
Non ve dico che bivo fuoco
se faceva per ogne luoco!
Ttè, ttè, ttè, ccà pistulate!
Ttà, ttà, ttà, là scoppettate!
Ttù, ttù, ttù, ccà li pistune!
Bu, bu, bu, llà li cannune!

Ma de cantà so già stracquato
e me manca mo lo sciato;
sicchè dateme licienzia,
graziosa e bella audenzia,
che sorchio na meza de seje,
co salute de luje e de leje,
ca se secca lo cannarone
sbacantànnose lo premmone!


O Guarracino que andava pelo mar
teve vontade de casar.
Colocou um belo vestido
de escamas e de espinhos, limpo, limpo,
com uma peruca toda recheada
de fitinhas enroladas,
o colarinho, o lenço de pescoço e punhos
de ponto inglês, fino, fino.

Com as calças de rede de fundo,
sapatos e meias de pele de atum,
fraque com a cauda
de algas e pelos de boi marinho,
com uma fileira de botões
de olhos de polvo, lulas e fêmeas de delfim,
fivela, espada e cachos pintados
de tinta de lula e fel de pargo.

Dois belos cordões
de pulmão de conchas,
um chapéu com galões
de rabo de sfirena salgada,
todo engomado e passado,
andava fazendo o vaidoso
e rodava por aqui e por aí
para encontrar a namorada.

A Sardinha, no balcão,
estava tocando o alaúde
e, em alto bom som,
cantava esta estrofe:
"E llarè o marelena
e a filha da senhora Lena
deixou o namorado
porque nada lhe deu nada de presente".

O Guarracino, que olhou para ela,
se apaixonou,
foi falar com uma bavosa,
a mais velha e maliciosa,
lhe deu uma boa grana
porque enviasse uma mensagem pra ela.
A bavosa, sem perder tempo,
falou com ela claro e redondo.

A Sardinha quando ouviu
ficou toda vermelha,
e pela vergonha que provou
escondeu-se sob um recife.
Mas a velha bavosa
logo disse: Ah esquisitinha,
desta maneira não vai encontrar um partido
e o marido vai ficar na tua garganta!

Se tens vontade de arrumar um casamento,
não pode fazer tantas histórias,
tira fora as graças e esquece a vergonha,
alma e coração, e cara de pau!
Ouvindo isso, a senhora Sardinha
debruçou-se à janela
e fez os olhos languidos
para o esperançoso namoradinho.

Mas o marisco, que estava escondido,
a chamou de cara de pau,
traidora, sem vergonha,
sem palavra e mal nascida,
porque havia abandonato o Leterado,
primeiro e antigo prometido.
Correndo foi encontra-lo
e lhe contou tudo.

Quando o pobrezinho a ouviu
foi pego por grande raiva.
Foi pra casa e pegou uma navalha,
carregou-se como um mulo
de fuzis e de espingardas
pólvora, bolas, pavios e estilhaços.
Quatro pistolas e três baionetas
enfiou no bolso.

Nos ombros setenta colubrinas,
oitenta bombas e noventa canhões
e como um Herói Paladino
andava procurando o Guarracino
que não teve sorte
porque o encontrou no meio  da praça.
O pega pela goela
e depois lhe diz: Ah malandro!

Tu me roubas a namorada
então pega esta paulada!
Tuffete e taffete a milhões,
lhe dava pancadas e golpes sob o queixo,
bofetadas, socos e golpes vários,
caçoletas, espancamento, socos na maxila
pescoçadas e murros no rosto
e lhe quebra ossos e cartilagens.

E acontece que ao barulho
parentes e amigos saíram na rua,
quem com bastões, facas e canivetes,
quem com espadas grandes e pequenas.
Estes com barras de ferro, aqueles com espetos ,
quem com amêndoas e quem com avelãs,
quem com tenazes  e quem com martelos,
quem com torrões e doces.

Pais, filhos, maridos e esposas
lutavam como feras.
A milhões acorriam, em grupos,
peixes deste ou daquele partido.
Viam-se muitas sardinhas e lulas,
solhas e raje pietrose,
sargos, pargos e capatões,
cavalas, atuns e leterados!

Pâmpanos e charcos,
escorpenas, chernes e enchovas,
mucchie, ricciole, musdee e mazzoni,
estrelas, sereias e esturjões,
bacalhaus, gronghi e moreis,
cachalotes, orcas e baleias,
enguias, agulhas e elenques,
bicudos, cocci, tracine e tencas.

Salmonetes, torpedos, trutas e atuns,
fiche, cipolle, laune e smaris,
polvos,  lulas e calamari,
peixes-espadas e estrelas do mar,
pânpanos e peixes-martelo,
umbrinas e cecenielli,
capochiodi e guarracinos,
caramujos, ostras e ouriços.

Mariscos, conchas e patelle,
tubarões e caranguejos,
tordi, pagelli e bavose,
boghe prenhas, viuvas e casadas,
spinole, spondili, serpi e sarpe,
descalços, com tamancos ou com sapatos,
paguros, camarões e lagostas
chegaram até com as carroças!

Capatões, sáurios e enguias,
peixes grandes e pequenos,
de todas as classes e nação,
poucos, muitos, mais que muitos e muitíssimos!
Quantas pancadas, minha mãe,
que se davam às cegas!
Centenas os golpes de barra!
Milhões as pedradas!

Mordidas e beliscões a bilhões,
os socos choviam!
Não vou contar que fogo vivo
acontecia em cada canto!
Te, te, te, aqui tiros de pistola!
Ta, ta, ta, aí tiros de fuzil.
Tu, tu, tu, aqui as espingardas!
Bu, bu, bu, aí os canhões!

Mas de cantar estou já cansado
e agora está faltando-me o ar,
por isso peço licença,
gracioso e belo publico,
pois quero beber uns copos de vinho
à saúde dele e dela,
se não seca-se a minha garganta
e esvaziam-se os meus pulmões!